Poeta 67 de 102

Diogo Borges

FRUTA

Chupo a fruta como quem lambe um segredo,

o suco escorre, lento, pelo queixo,

é um rio que se oferece sem medo.


A boca se abre em concha,

língua e dentes aprendem a geografia da polpa,

há um mapa doce no interior da casca.

Mordo e não mordo, apenas sugo,

porque o gozo é líquido

e não quer pressa.


Cada fruta pede entrega,

cada caroço é um núcleo de desejo,

cada casca, um véu arrancado.

Sugo fundo até perder o fôlego,

recolho o excesso com os dedos,

pinto a pele de líquido lascivo.


Chupar é regressar ao instante primeiro,

à fome sem culpa,

ao prazer que se revela sem nome.

O ritmo é lento e contínuo,

dança de boca contra boca,

um ato de pura fome.


No fim, já não sei se é fruta ou amante:

o corpo gotejando doçura

ou fruta chupada no instante.

Diogo Borges é poeta, contador de histórias e curador de eventos literários. Publicou pela TAUP os livros Estranha língua e Da casa.

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