Poeta 98 de 102

Sofia Lopes

LIMIAR

dizem que o corpo se lembra — tem, até aqui, sido verdade: o tremor ao longo do ventre — e mais, mais abaixo — as nódoas fortuitas, marcadas — gravadas na pele — junto ao tênue vestígio de dor e quão depressa transmuta-se a dor em pensamento — fundo, oceânico — é cálida a água que te sustém onde sigo também suspensa, um instante, por olhares líquidos, pela avidez das mãos — fogo, incenso — sem pudor — e penso — penso que desejas com uma violência velada, tácita — sob a névoa do real, jaz o anseio insondável ao olho nu — até que não reste interstício ou distinção — até que se revele — aqui, nada é proibido.

Sofia Lopes é escritora, tradutora e pesquisadora. Escreve poesia e obras interativas, com livros como Galatea e Carbon Made.