Poeta 12 de 102

Virna Sabayo

STORYTELLING #69

Quero inventar uma gramática líquida

Onde cada gota seja verbo. Cada respiração: travessia


Quero falar com o olhar. Sentir meus contornos borrados

Meu batom vermelho transformado em carne encarnada

Quero brincar de gangorra, montanha-russa

Incorporar a casa assombrada do parquinho de interior

Deixando você entrar em todos os buracos

E para cada um: gemidos específicos

Quero encenar a odalisca no travelling da tua barba,

Quadril que oscila — colmeia em transe —

Mel gotejando, abelhas girando em loop.


Quero sussurrar palavras sujas como teu nome sacro

Profanado em voz rouca, olhar fixo.


Quero me render. De joelhos, de cócoras

Numa reza performática. Boca aberta, língua a mostra

Uma súdita

Esperando tua réplica quente e espessa.

— Branca: bandeira da paz. Hidro-paz.

Depois disso: som de asas batendo.

Virna Sabayo é publicitária e escritora. Trabalha na fricção entre metáfora e ritual. Autora de Parir Flores em Solo Árido (TAUP, 2026).

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