Poeta 24 de 102
Kauan Amora
A UM DEUS
(inspirado no poema
"A uma madona", de Baudelaire)
Elevarei um altar subterrâneo, na minha alma devassa.
Cavarei num canto negro em meu ser, uma capela azul com
Uma esmeralda cravada,
Onde tu te erguerás, Estátua deslumbrada.
Com meus versos polidos de puro metal
Gravarei em teu corpo rimas de cristal,
E pelo meu ciúme, ó Deus tão amado,
Te farei um manto com meu sangue marcado
Teu vestido será meu desejo, a tremer,
Ondulante, o desejo a subir e a descer,
Nas pontas se projeta e nos vales descansa,
E reveste de um beijo a tua linda carne mansa
Do meu respeito, te farei os mais belos calçados
De cetim, para teus pés divinos humilhados
Se não puder, malgrado a arte dedicada,
Talhar-te-ei em leito suntuoso uma lua prateada
Do alto verás meu desejo, Ó Pai, no altar enfeitado,
Olhar-te sempre com olhar afogueado.
E como tudo em mim te quer muito e te ama
Te farei das minhas imaculadas costas uma bela cama
E sempre rumo a Tua coroa de espinhos majestosa
Em langor subirá a minha alma tempestuosa.
Para completar a minha longa romaria,
E para mostrar que amor com barbárie se alia,
Dos pecados capitais, te farei sete punhais
Tu vais enterrá-los no meu coração
No teu abraço, gritando de amor, encontrarei teu perdão.
Kauan Amora é escritor, dramaturgo, ator e professor de teatro. É doutor em História Social da Amazônia e docente na UFRA.